Especialista do Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo, em Belém, alerta para diagnóstico precoce e cuidados na investigação da doença
Por Ellyson Ramos
04/09/2026 15h05
Uma dor que não passa, aumenta progressivamente ou se manifesta com mais intensidade durante o repouso pode ser um sinal de alerta para câncer ósseo em crianças e adolescentes. No Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo (Hoiol), em Belém, os tumores ósseos ocupam a quarta posição entre os tipos de câncer mais frequentes entre os pacientes atendidos na unidade, depois das leucemias, dos tumores do sistema nervoso central e dos linfomas. Osteossarcoma e sarcoma de Ewing são os tipos mais recorrentes.
De acordo com o oncologista ortopédico do Hoiol Fernando Brasil, os tumores ósseos malignos podem ser primários, quando se originam no próprio osso, ou secundários, quando chegam ao esqueleto após a disseminação de um câncer iniciado em outro órgão. Enquanto as metástases ósseas são mais comuns em adultos acima dos 40 anos, os tumores primários atingem principalmente pessoas entre 10 e 20 anos. Na infância e na adolescência, a região ao redor do joelho é a mais frequentemente afetada, justamente por concentrar intensa multiplicação celular durante o crescimento.
A característica progressiva da dor, segundo o oncologista, é um dos principais sinais que devem chamar a atenção dos responsáveis. “A dor não regride, não se trata de uma queixa passageira que surge hoje e desaparece amanhã”, afirmou Brasil. No início, o incômodo pode ser discreto e passar despercebido durante as atividades cotidianas, mas tende a se tornar mais evidente quando a criança está em repouso. Dor persistente, especialmente à noite, aumento de volume, limitação de movimentos e fraturas após traumas de baixa intensidade estão entre os sinais que precisam de avaliação médica.
Moradora do município de Ananindeua, nordeste paraense, a dona de casa Eliana Bezerra, 46 anos, relata que a filha, Emilly Lorena, 11 anos, apresentou inchaço e dor persistente no joelho esquerdo. Após procurar um posto de saúde e receber medicação para alívio da dor, não houve melhora. Depois de sentir dores intensas na escola, a menina foi encaminhada a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). O exame de raio-X levantou suspeitas, e a paciente foi encaminhada ao Hospital Octávio Lobo, referência em oncologia pediátrica na região amazônica. A biópsia confirmou posteriormente o diagnóstico de osteossarcoma, tipo mais comum de câncer ósseo maligno primário.
Diante da experiência, a dona de casa recomenda que pais e responsáveis observem mudanças no comportamento e as queixas de dor dos filhos. “É fundamental estar atento a qualquer dor ou sintoma e buscar investigação médica para saber se tem algo de errado”, aconselhou.
Diagnosticada em agosto de 2025, Emilly conta que, antes da doença, tinha uma rotina marcada por brincadeiras, atividades ao ar livre e muita energia. O tratamento oncológico trouxe mudanças e restrições, mas, segundo a mãe, a menina continua animada e carinhosa. “Minha filha é muito querida e continua sendo forte e guerreira”, afirmou a mãe, que também relembrou períodos como o Círio de Nossa Senhora de Nazaré e o Natal, nos quais passou com a filha internada na unidade. “Foi muito difícil. No Círio, por exemplo, eu não pude pagar minha promessa, mas esse ano eu pago, com muita fé em Deus e em Nossa Senhora”, concluiu.
Emilly, no entanto, busca guardar lembranças positivas, como as visitas de muitos Papais Noéis voluntários, que realizaram atividades junto à equipe de Humanização da unidade. “Passei o Natal inteiro no hospital e ganhei um monte de presentes. Eu conheci muitos Papais Noéis. Tinha gordinho, magrinho, maquiado e até um que veio com vários duendes! Foi muito legal!”, recordou a garota, com um largo sorriso no rosto.
Enquanto aguardava mais uma consulta com o especialista, Emilly relembrou momentos de brincadeiras com os irmãos e, para surpresa da mãe, manteve uma postura positiva e deixou uma mensagem para outras crianças que enfrentam a doença. “Eu diria para ter força, fé e nunca perder a alegria, pois Deus está sempre ao nosso lado”, afirmou a menina.
Diagnóstico precoce – Para Fernando Brasil, o estadiamento, que mostra a extensão da doença no organismo, é o principal fator relacionado à evolução do quadro. O pulmão é o local mais frequente de disseminação desses tumores, e a presença de metástase pulmonar no diagnóstico pode alterar significativamente as perspectivas de tratamento. Por isso, a identificação precoce aumenta as possibilidades de cura e também pode permitir procedimentos que preservem o membro afetado.
“A investigação começa, em geral, com uma radiografia simples. Quando há suspeita de tumor ósseo, o paciente deve ser encaminhado a um serviço especializado em oncologia ortopédica para o estadiamento, que pode incluir tomografia de tórax, cintilografia óssea, ressonância magnética e biópsia”, explicou Brasil.
O tratamento pode envolver quimioterapia antes da cirurgia, com o objetivo de reduzir o tumor e combater células tumorais que possam estar circulando pelo organismo. Quando possível, a cirurgia busca preservar o membro, utilizando técnicas como endopróteses, enxertos ósseos ou reimplante de osso tratado. Em situações em que a preservação não é viável, a amputação pode ser necessária. Depois da cirurgia, a quimioterapia é retomada, e possíveis metástases pulmonares são avaliadas.
No caso de Emilly, foi necessária a amputação de parte da perna esquerda. Para Eliana, a decisão foi dolorosa, mas estava relacionada à preservação da vida da filha. “O maior receio, sem dúvida, era o risco de perdê-la”, afirmou. Hoje, segundo a mãe, Emilly está bem e ansiosa pelo término das sessões de quimioterapia.
Avaliação – O especialista reforça que nem toda dor óssea representa câncer. A maioria das dores musculoesqueléticas tem causas benignas, como traumas, sobrecarga física ou inflamações. No entanto, quando a dor persiste, piora progressivamente, surge durante a noite ou vem acompanhada de inchaço, perda de função ou fratura sem trauma significativo, a recomendação é procurar avaliação médica. Em caso de suspeita de tumor ósseo, o encaminhamento para um centro especializado deve ocorrer antes da realização de uma biópsia.
A experiência de Emilly reforça a importância de olhar para além do diagnóstico e reconhecer também a força, a personalidade e os sonhos de crianças e adolescentes que enfrentam o câncer. Para o oncologista ortopédico, é justamente esse compromisso que dá sentido ao trabalho da equipe da unidade. “Nosso propósito é transformar positivamente a vida de outras pessoas, utilizando o conhecimento e as ferramentas que adquirimos, além de transmitir esse aprendizado às novas gerações que iniciam a carreira. E o que nos motiva diariamente é a possibilidade de proporcionar a uma criança não apenas a possibilidade de cura e de preservar um membro, mas também a chance de seguir em frente com mais qualidade de vida”, afirmou Fernando Brasil.
Sinais de alerta – É importante ficar atento e buscar avaliação médica ao notar:
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