Hospital Octávio Lobo celebra 400 histórias de fé, superação e cura

Quadringentésima paciente a tocar o ‘Sino da Vitória’ da unidade, Vitória Moreira, de 15 anos, comemorou a cura ao lado da mãe e de colaboradores

Por Ellyson Ramos
12/03/2026  17h00

Colaboradores comemoram as centenas de histórias de cura na unidade de saúde. Foto: Ellyson Ramos/Ascom Hoiol

O que começou como um simples inchaço no rosto de uma menina se transformou em uma longa jornada de fé e superação. Após mais de cinco anos de tratamento e acompanhamento especializado, a estudante Vitória Moreira, de 15 anos, tornou-se a quadringentésima paciente a tocar o “Sino da Vitória” no Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo (Hoiol), em Belém. A celebração, realizada na tarde de quarta-feira (11), emocionou colaboradores, pacientes e acompanhantes e marcou o 400º sino tocado na unidade.

Aos 15 anos, Vitória entra para a história do hospital como a paciente número 400 a tocar o “Sino da Vitória”. Foto: Ellyson Ramos/Ascom Hoiol

Em 2019, Vitória tinha apenas 7 anos quando ela e a mãe, a dona de casa Keli Trindade, de 40 anos, perceberam o aumento na região da mandíbula. A suspeita inicial era papeira, infecção viral também conhecida como caxumba, que provoca inflamação das glândulas salivares. “Mas, com o tempo, o inchaço foi aumentando e comecei a sentir que poderia ser algo mais sério”, recordou a mãe.

Ao lado da mãe, Keli Trindade, Vitória toca o “Sino da Vitória” e celebra a cura após anos de tratamento no Hospital Octávio Lobo. Foto: Ellyson Ramos/Ascom Hoiol

Determinada a entender o que motivou a alteração no rosto da filha, Keli procurou um especialista, que identificou a presença de três nódulos. Vitória passou por uma série de exames e, em cerca de três meses, um novo nódulo surgiu, desta vez, próximo ao olho direito. Após a biópsia, a criança foi diagnosticada com uma doença linfoproliferativa e encaminhada para o Hoiol. “Eu morava em Igarapé-Açu (município localizado no nordeste paraense) e fui descobrir o que era a doença e como seria o tratamento quando cheguei ao Hospital Octávio Lobo”, afirmou a dona de casa.

Os médicos Fabíola Puty e Antônio Morerira celebram o sucesso do tratamento. Foto: Ellyson Ramos/Ascom Hoiol

O diagnóstico marcou o início de um período desafiador para a família. Logo no começo do tratamento, Keli precisou reorganizar completamente a vida pessoal e profissional para acompanhar a filha nas consultas e sessões de quimioterapia. A rotina intensa acabou contribuindo para o fim do relacionamento com o pai da menina. “Precisei mudar tudo. Minha prioridade era apoiar minha filha e estar com ela no hospital. Isso gerou muitos conflitos, e decidi seguir sozinha para preservar a tranquilidade dela. Meu maior medo era o de não ser suficiente, mas, desde o início, Deus estava presente”, contou.

A cerimônia do Sino representa o fim de uma jornada e o começo de um novo capítulo na vida de crianças e adolescentes que receberam a alta definitiva. Foto: Ellyson Ramos/Ascom Hoiol

No Hospital, Keli afirma ter encontrado o acolhimento de que precisava. Colaboradores e outras mães de pacientes se tornaram uma rede de apoio durante o tratamento. Entre os profissionais que marcaram a trajetória da família está a médica Fabiola Puty, que acompanhou o caso e deu a notícia da cura, celebrando também o marco dos 400 sinos tocados na unidade. Quero parabenizar a todos por tanto trabalho, amor e dedicação. Essas altas só foram possíveis porque todos nós formamos um grupo lindo, cheio de gás e amor aos pequenos. Parabéns e muito obrigada por tanto”, afirmou a oncopediatra.

Equipe multiprofissional participa da celebração que marca 400 histórias de cura na unidade. Foto: Ellyson Ramos/Ascom Hoiol

Durante o tratamento, Vitória também fez amizade com outras crianças e enfrentou o adoecimento com determinação. O início da quimioterapia, no entanto, foi um dos momentos mais difíceis para mãe e filha. Keli lembra da preocupação com alguns efeitos. “Ela sentia muito sono, tinha vômitos e dores. Mesmo assim, sempre demonstrou muita força. Minha filha é carinhosa, obediente e muito forte”, disse a genitora orgulhosa. Para distrair, a menina desenhava, pintava e fazia pulseirinhas de miçangas. “Foi a forma que ela encontrou para enfrentar o momento”, ressaltou a mãe.

Colaboradores celebram o sucesso do tratamento da quadringentésima paciente a tocar o Sino da Vitória no Hospital Octávio Lobo. Foto: Ellyson Ramos/Ascom Hoiol

Marco – A cerimônia do “Sino da Vitória” reúne etapas cheias de simbolismos, como o desfile com a placa comemorativa, o toque do sino e o carimbo da mão na “Árvore da Vida”. Para acompanhantes e pacientes que ainda estão em tratamento, o momento costuma ser de muita emoção. E por trás de cada conquista, está o trabalho dedicado de profissionais que acompanham de perto a trajetória de pacientes e familiares ao longo de todo o processo. Uma dessas colaboradoras é a assistente do Escritório de Experiência do Paciente (EEP), Elizabeth Cabeça, que há 10 anos presencia e compartilha histórias de superação e cura na unidade.

Para carimbar o mural da Árvore da Vida, Vitória teve a mão pintada pela mãe. Foto: Ellyson Ramos/Ascom Hoiol

Para a assistente, chegar ao marco dos 400 sinos tocados e fazer parte da trajetória de centenas de pessoas é motivo de gratidão. “É fantástico pensar que participei disso e que conheci cada criança que tocou esse sino. Eu costumo dizer que fiquei com a melhor parte, a de anunciar boas novas”, disse emocionada.

Beth, como é carinhosamente chamada por todos, resume o sentimento que permanece após cada badalar do sino do Hoiol. “É a sensação de dever cumprido, uma tarefa concluída com sucesso, pois quando uma criança ou adolescente toca o ‘Sino da Vitória’, quem está iniciando ou já está em um tratamento se sente mais confiante na cura também. Ao ouvirem o sino tocar, outras famílias renovam suas esperanças e pensam: meu filho também pode ser curado”, destaca a colaboradora.

Elizabeth Cabeça, assistente do Escritório de Experiência do Paciente do Hoiol e idealizadora do projeto na unidade. Foto: Ellyson Ramos/Ascom Hoiol

Memórias – Beth também guarda momentos inesquecíveis das famílias que passaram pelo Hoiol e também preserva uma tradição especial, a escrita dos “Memórias da Cura”, cadernos nos quais pacientes e familiares deixam mensagens após o fim do tratamento. Os registros reúnem depoimentos de quem viveu a experiência da alta definitiva, consolidada após cinco anos sem recidiva da doença. “A ideia surgiu para que todos que fizeram parte da cura reconheçam a importância do seu papel nesse processo e, ao mesmo tempo, para aqueles que chegam à unidade percebam que também podem fazer parte dessa história”, explicou.

Natacha Cardoso, coordenadora de Humanização, e Elizabeth Cabeça, assistente do EEP, posam com os cadernos "Memórias da Cura”. Foto: Ellyson Ramos/Ascom Hoiol

O momento da escrita ocorre logo após a cerimônia do sino. Os pacientes são convidados a deixar uma mensagem para que outras famílias conheçam e se fortaleçam. “Eles (pacientes que tocaram o Sino da Vitória do Hoiol) fazem questão de escrever agradecendo a Deus, aos familiares e a cada colaborador”, afirmou Beth, que destaca a fé como um dos sentimentos mais citados nos depoimentos. “As mensagens falam muito sobre Deus. Leio todas e uma das que mais me marcaram traz um versículo bíblico que resume muitos dos sentimentos registrados nos cadernos: ‘Em tudo dai graças, porque essa é a vontade de Deus em Cristo Jesus’.”

Após badalar o Sino da Vitória pelos corredores da unidade, Vitória Moreira deixa sua mensagem no caderno "Memórias da Cura", do Hoiol. Foto: Ellyson Ramos/Ascom Hoiol

No último dia 7 de março, Vitória comemorou o aniversário de 15 anos. Para Keli, ouvir o sino tocar nas mãos da filha foi “um alívio imenso e um presente muito aguardado”. “Estou muito feliz e imensamente aliviada. No sábado (7), quando ela completou 15 aninhos, eu disse que não poderia comemorar da forma como eu gostaria, mas que Deus lhe entregaria algo muito maior. E hoje (11), recebemos a notícia da cura. Deus é maravilhoso”, comemorou.

Vitória e Keli celebram a alta definitiva após mais de cinco anos de tratamento. Foto: Ellyson Ramos/Ascom Hoiol

Serviço – Credenciado como Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon), o Hoiol é referência na região amazônica no diagnóstico e tratamento especializado do câncer infantojuvenil, na faixa etária entre 0 a 19 anos. A unidade, fundada em 2015, é gerenciada pelo Instituto Diretrizes (ID), sob contrato de gestão com a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa).