No ambiente hospitalar, a Terapia Ocupacional adapta o lúdico para preservar o desenvolvimento, proteger a energia do corpo e ressignificar perdas na rotina de crianças e adolescentes
Por Ascom Hoiol
29/09/2026 17h27
BELÉM (PA) – Nas enfermarias e brinquedotecas do Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo (Hoiol), ver uma criança envolvida em uma brincadeira pode parecer, aos olhos de quem observa, um mero passatempo para esquecer a dor ou fazer o tempo correr. Para a Terapia Ocupacional (TO), no entanto, a cena carrega um rigor técnico. O lúdico, no contexto hospitalar, não é entretenimento improvisado, mas sim um recurso terapêutico baseado em evidências científicas, com alvos clínicos bem definidos.
Dentro desse contexto, o brincar é estudado como uma ocupação e uma das mais importantes de toda a infância, é a partir dela que a criança se desenvolve. Esse processo de amadurecimento não se ausenta só porque houve uma hospitalização, conforme explica o especialista Lukas Alencar, TO do Hospital Octávio Lobo.
“As atividades lúdicas funcionam como um meio de criação de vínculo entre o profissional e a criança ou o adolescente, além de atuarem como um recurso terapêutico. Nas crianças menores, o foco recai sobre o desenvolvimento psicomotor; já nas maiores, o trabalho busca a manutenção ou a recuperação de componentes motores, cognitivos e funcionais, favorecendo o desempenho nas atividades cotidianas e atenuando os impactos da hospitalização”, explicou o terapeuta.
Contudo, colocar essa engrenagem em prática exige superar barreiras impostas pela própria doença e pelos protocolos de tratamento. Dor, fadiga, alterações laboratoriais e redução da disposição física podem dificultar o engajamento nas atividades. “Nesses casos, o papel do terapeuta ocupacional exige avaliação constante e adaptação minuciosa: as propostas são flexibilizadas e podem ocorrer diretamente no leito, com menor demanda física, mas significativas e estimulantes”, explicou Alencar.
A estrutura física também é importante para garantir a segurança física e emocional. Ambientes projetados para favorecer o brincar, a socialização e a autonomia são essenciais. O Hoiol conta com uma brinquedoteca estruturada e um Espaço Jovem equipado com recursos como videogame, pebolim e área externa dedicada a atividades ao ar livre. “Esses espaços permitem experiências mais próximas da rotina dos pacientes, respeitando as condições clínicas e as medidas de segurança necessárias durante o tratamento”, pontuou Lukas.
Tecnologia e afeto para driblar as limitações do corpo
Um dos maiores desafios enfrentados durante o tratamento é a interrupção abrupta de práticas que exigiam vigor físico antes do diagnóstico, a exemplo do futebol, da natação ou do ciclismo. Para lidar com essa perda de identidade e de autonomia, a Terapia Ocupacional recorre a adaptações criativas e recursos tecnológicos.
Alencar relata o caso de um adolescente diagnosticado com osteossarcoma que, antes da internação, tinha o hábito constante de andar de bicicleta. Como a condição física do momento vetava a prática habitual, a equipe utilizou o Nintendo Wii para simular a atividade de pedalada de forma segura e adaptada. A estratégia garantiu que ele retomasse uma experiência de rotina.
A personalização começa pela compreensão de quem é aquela criança ou adolescente para além do diagnóstico. “Investigamos o histórico ocupacional, a rotina, os interesses, as preferências e as atividades com significado para o paciente. A partir disso, construímos propostas terapêuticas, individualizadas, que façam sentido para a realidade dele e garantam a participação ativa no tratamento. Dessa forma, a Terapia Ocupacional contribui para preservar autonomia, identidade, participação e qualidade de vida, mesmo durante um período marcado por muitas limitações”, concluiu o profissional de saúde.
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