Reconhecer sinais do câncer infantil pode encurtar o caminho até o tratamento

Histórias de famílias atendidas pelo Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo reforçam a importância de identificar sinais persistentes e buscar atendimento especializado

Por Ellyson Ramos
21/09/2026 18h59

Fernanda acompanha o filho Thallison no tratamento oncológico, em Belém. Foto: Leila Cruz/AscomHoiol

Uma dor que não passa, uma febre que volta sem explicação ou uma mudança no comportamento habitual da criança podem parecer sintomas comuns. Foi a persistência desses sinais, porém, que levou famílias atendidas pelo Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo (Hoiol), em Belém, a buscarem respostas e descobrirem um diagnóstico que mudaria completamente a rotina. Durante o Setembro Dourado, mês de conscientização sobre o câncer infantojuvenil, o hospital reforça a importância de reconhecer os sinais da doença e procurar atendimento médico para investigação.

Para Fernanda do Nascimento, de 39 anos, moradora de Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, a preocupação começou quando o filho, Tallison Moreira, então com 8 anos, passou a sentir uma dor contínua na perna direita, acompanhada de episódios de febre. Mesmo depois de procurar atendimento algumas vezes em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), a mãe percebeu que havia algo diferente. “Ele tinha uma dor na perna direita, uma dor que não tinha fim, e uma febre que ia e voltava. Eu conhecia bem o meu filho e sabia que aquilo não era normal. Então, insisti para que fossem feitos exames mais aprofundados”, contou a lavradora. Em fevereiro de 2024, veio a confirmação da leucemia linfoide aguda (LLA).

A partir do diagnóstico, Fernanda mudou-se com o filho para Belém, onde ele passou a realizar o tratamento oncológico. Tallison enfrentou os efeitos da quimioterapia, mas, ao longo do tratamento, voltou a movimentar a perna e a caminhar. Para não interromper os estudos, também passou a frequentar a Classe Hospitalar Prof. Roberto França, dentro do próprio hospital. Atualmente, após mais de dois anos de tratamento, ele segue em acompanhamento para controle da doença. “Para o futuro do meu filho, quero vê-lo curado. Aliás, para mim, ele já está curado”, afirmou Fernanda.

Em tratamento contra a leucemia, Thallison Moreira, 8 anos, estuda na Classe Hospitalar Professor Roberto França, do Hoiol. Foto: Leila Cruz/AscomHoiol

Há um ano e meio, a rotina da família do personal trainer Luiz Fernando Lima, de 39 anos, também mudou. Ele e a esposa, Anne Wanderley, de 37,  acompanham a filha, Manoela, de 5 anos, em tratamento contra a leucemia. Para eles, além do atendimento médico, o suporte recebido no hospital tornou-se parte importante da caminhada da família. “O hospital é maravilhoso. Sempre recebemos muito apoio e carinho de toda a equipe, das enfermeiras, técnicas e médicos”, relatou Luiz.

Manoela também criou vínculos com profissionais e outras crianças atendidas na unidade. O pai conta que ela é carinhosamente chamada de “Manozita” e que, assim como toda a equipe, mantém a expectativa de vê-la tocar o Sino da Vitória, símbolo utilizado pelo hospital para celebrar a alta curada dos pacientes. “Se Deus quiser, logo, logo ela também estará tocando o sino, pois sabemos que, independentemente da batalha, jamais devemos perder a fé e a esperança.”

Investigação – Segundo a médica oncologista pediátrica e diretora técnica do Hoiol, Alayde Vieira, uma das principais dificuldades no diagnóstico do câncer infantil é que os primeiros sinais podem ser confundidos com problemas comuns da infância. Entre as alterações que merecem atenção estão perda de peso sem explicação, palidez persistente, febre prolongada, manchas roxas ou sangramentos sem causa aparente, dores ósseas ou articulares persistentes, caroços, massas e aumento do volume abdominal. Dores de cabeça persistentes, vômitos recorrentes e alterações na visão ou no equilíbrio também podem ocorrer, dependendo do tipo de tumor.

Luiz Fernando Lima e a filha Manoela, em tratamento contra a Leucemia. Foto: Ellyson Ramos/AscomHoiol

A médica ressalta, no entanto, que esses sintomas não significam necessariamente que a criança tenha câncer. O alerta está principalmente na persistência ou recorrência dos sinais e na associação entre diferentes alterações. Para Alayde, o reconhecimento precoce depende também da preparação dos profissionais de saúde nos municípios para identificar casos suspeitos e encaminhá-los rapidamente. “Quanto mais cedo esse diagnóstico for feito, mais rapidamente a criança poderá iniciar o tratamento adequado”, explica.

Dados – O alerta ganha dimensão diante dos números. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar 7.560 novos casos de câncer infantojuvenil por ano entre 2026 e 2028. No Pará, são estimados 240 novos casos em 2026. Entre os tipos de câncer mais frequentes registrados no Hoiol estão leucemia, tumores do sistema nervoso central, linfoma e tumor ósseo.

Apesar do impacto provocado pelo diagnóstico, a informação também está associada à possibilidade de cura. De acordo com o INCA, cerca de 80% das crianças e adolescentes com câncer podem ser curados quando a doença é diagnosticada precocemente e o tratamento é realizado em centros especializados. No HOIOL, 424 pacientes já tocaram o Sino da Vitória desde a fundação da unidade, em 2015. “O diagnóstico do câncer infantojuvenil não quer dizer que é uma sentença de morte para a criança. Pelo contrário, é uma sentença de esperança”, concluiu Alayde Vieira.

Alayde Vieira, oncologista pediátrica e diretora técnica do Hoiol. Foto: Divulgação/AscomHoiol

O Setembro Dourado reforça a importância de ampliar o conhecimento sobre os sinais do câncer infantojuvenil e reduzir o tempo entre a suspeita e o início da investigação. No Brasil, a doença é a primeira causa de morte por doença entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos e corresponde a 8% dessas mortes. A atenção das famílias e a atuação dos profissionais de saúde são fundamentais para que alterações persistentes sejam investigadas e os casos suspeitos sejam encaminhados aos serviços especializados.

Fique atento – Algumas alterações na saúde da criança merecem avaliação médica, principalmente quando persistem, se repetem ou aparecem acompanhadas de outros sintomas:

  • Perda de peso sem explicação;
  • Palidez persistente;
  • Febre prolongada;
  • Manchas roxas ou sangramentos sem causa aparente;
  • Dores ósseas ou articulares persistentes;
  • Caroços ou massas;
  • Aumento do volume abdominal;
  • Dor de cabeça persistente;
  • Vômitos recorrentes; e
  • Alterações na visão ou no equilíbrio.