Classe hospitalar garante direito ao ensino no 'Oncológico Infantil Octávio Lobo'

Desenvolvido por meio de cooperação técnica com a Secretaria de Educação, Projeto assegura que crianças e adolescentes continuem os estudos, reafirmando a educação como direito fundamental mesmo em meio ao tratamento do câncer

Por Leila Cruz
02/023/2026  10h57

O cronograma das aulas é individualizado de acordo com os atendimentos de saúde a fim de evitar impactos na rotina clínica e favorecer a adesão às atividades pedagógicas. Foto: Jaíne Oliveira/ Ascom Hoiol

As alterações originadas pelo diagnóstico e tratamento do câncer em diferentes aspectos da  vida dos pacientes, especialmente de crianças e adolescentes, fazem emergir a necessidade de readaptação na rotina familiar, social e educacional. Porém, mesmo longe da escola, o direito de continuar aprendendo é garantido pela Constituição Federal de 88 e pela Lei de Diretrizes de Base da Educação Nacional (LDB) nº 9.394.  Mais que conteúdo escolar, essa garantia é um instrumento de cuidado, dignidade e perspectiva de futuro, e se afirma como política pública no Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo (Hoiol), em Belém.

O Hoiol é habilitado como Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) e atua como referência para pacientes, de 0 a 19 anos incompletos, oriundos dos 144 municípios paraenses. Muitos deles necessitam permanecer semanas e até meses em cuidados médicos. Nesse período, contam com acompanhamento pedagógico que assegura a continuidade ao processo de escolarização.

As atividades da Classe Hospitalar Professor Roberto França, do Hoiol, são desenvolvidas a partir do convênio de cooperação técnica com a Secretaria de Educação do Estado do Pará (Seduc), mediante a parceria entre o Núcleo de Educação Permanente (NEP) do Hospital e a Coordenação Pedagógica da classe, por meio da Coordenadoria de Educação Especial (COEES)/Seduc. As aulas são ministradas por um corpo docente formado por duas pedagogas e 11 professores de diversas áreas de conhecimento, como Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia, Biologia , Química , Filosofia e Sociologia.

A visita ao planetário com uma aula de campo que integra o projeto anual e engloba todos os componentes de ciência da natureza e de matemática. Foto: Jaíne Oliveira/Ascom Hoiol

As modalidades de ensino e os conteúdos são ajustados às condições clínicas, ao ritmo de recuperação e às necessidades, com foco no bem-estar integral de cada estudante. O hospital disponibiliza os recursos e insumos necessários para que as aulas sejam transmitidas com qualidade: computadores, acesso à internet,  material escolar por meio da doação de voluntários, enquanto o material didático é oferecido pela Seduc. Em 2025, o hospital conseguiu a doação de tablets para todos os alunos matriculados.

Atuamos com modalidade presencial na sala de aula do 5º andar, com c“ronograma individualizado de acordo com os atendimentos de saúde a fim de evitar impactos na rotina clínica e favorecer a adesão às atividades pedagógicas enquanto o aluno-paciente estiver na unidade. Mas também oferecemos o atendimento à beira-leito para aqueles impossibilitados de comparecer à sala.  E ainda o atendimento pedagógico em domicílio, conforme estabelecido pela educação especial, para aqueles que não estão internados, mas não apresentam condições de frequentar a classe”, informou a coordenadora do NEP, Natacha Cardoso.

Histórias de Superação

Crislane Silva, 22 anos, hoje é aluna do 7º semestre do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, da Universidade Estadual do Pará (Uepa), fez tratamento contra leucemia no hospital e foi aluna da classe até ingressar no ensino superior. Para ela, a Classe Hospitalar exerceu um papel fundamental na conclusão do ensino médio, seja no leito, em sala de aula, ou de forma virtual. “Lembro que na época de pandemia, não haveria aula, então criei um e-mail e os professores se disponibilizaram a ministrar aula online. Sou muito grata por todo apoio pedagógico recebido para que eu pudesse estudar mais e aprender mais”, disse Crislane.

“Olhando para minha trajetória vejo que a classe hospitalar contribuiu muito para a minha trajetória acadêmica. Os professores sempre me apoiaram no meu sonho de fazer faculdade e, quando passei, eles comemoraram junto comigo e esse sempre será um momento muito importante e especial para mim. A classe me deu apoio no momento mais difícil da minha vida e através dela eu pude concluir o ensino médio e entrar na faculdade.  Sou muito grata mesmo a todos os professores que sempre me apoiaram e me motivaram a seguir meus sonhos e só tenho a agradecer por tudo que fizeram por mim.

Cauã Nogueira afirma que o apoio dos profisisonais do hospital foi essencial durante o período de internação. Foto: Arquivo Pessoal

Cauã Nogueira, 18 anos, reside na cidade de Baião. Em 2023, foi diagnosticado com um  sarcoma de Ewing – um tumor maligno raro e agressivo que se forma nos ossos ou tecidos moles, e foi submetido a rotinas de quimioterapia e radioterapia. Na metade daquele ano entrou na Classe e saiu somente em 2024. Mesmo submetido a  intervenções complexas, que o mantiveram internado por um longo período, os professores sempre  que  possível, ministravam as aulas. O adolescente afirma que isso permitiu continuar estudando e, finalmente, terminar o ensino médio sem interromper o tratamento.

“Meus planos para o futuro é me tornar médico psiquiatra. Desde que passei a viver essa rotina hospitalar, sempre observei o medo das pessoas de que algo ruim acontecesse com seus filhos e filhas. A ansiedade e o medo criavam um clima tenso, quando deveria ser o contrário: um ambiente de esperança, força e coragem para enfrentar a doença, com a certeza de que buscamos a cura”, afirmou.

Ele conta que nunca teve grandes dificuldades com isso, porque sempre acreditou que iria superar essa situação.  “Acredito que, por meio da fé, podemos enfrentar qualquer situação e sair dela mais fortes e vitoriosos. Foi assim que consegui seguir em frente , com fé, com o apoio da minha família e dos meus amigos, e com a ajuda de vários profissionais do hospital, que tornaram tudo isso possível. E é por isso que eu quero me tornar um médico psiquiatra, para mostrar que a luta externa é inferior à luta que temos em nossas mentes”, declarou.

Atividade Extracurricular da Classe Hospitalar. Foto: Divulgação

Educação como ponte para o futuro

A cada ano, o projeto recebe, em média, 50 crianças e adolescentes, somando cerca de 650 alunos beneficiados  ao longo da execução do projeto. No espaço da classe, o ensino ocorre de forma multisseriada, unindo em um mesmo ambiente alunos do Ensino Fundamental I, II e do Ensino Médio. “Apesar da diversidade de idades e séries, o currículo segue rigorosamente as diretrizes da Seduc-PA, assegurando que o tempo de internação não signifique uma pausa no aprendizado, mas sim uma continuidade do desenvolvimento intelectual e social dentro do ambiente hospitalar”, afirmou a Professora de Referência da Classe Hospitalar do Hoiol, Elvira Santos.

A professora explica que, mais do que uma manutenção de rotina, a Classe Hospitalar atua como uma ponte para o futuro. Os alunos das três modalidades de ensino são formalmente matriculados na Escola Estadual Barão do Rio Branco, uma garantia da validade do percurso escolar. “O diálogo com pais ou responsáveis é fundamental para que possamos escolher os  melhores dias e turnos sem comprometer os procedimentos clínicos e permitir uma logística acessível à família. E, dependendo do período em que o paciente se encontra, os horários são flexibilizados para que o processo escolar não atrapalhe o tratamento e também não seja negligenciado os estudos”, explicou.

Elvira garante ainda que o acompanhamento individualizado e com foco na superação permite  que muitos jovens concluam a educação básica durante o tratamento oncológico e consigam ingressar no ensino superior. “Dessa forma, a educação hospitalar reafirma o papel essencial de transformar o hospital em um lugar de esperança e de preparação para novas etapas da vida”,  concluiu.

Foto: Divulgação